sábado, 15 de junho de 2013

O MENINO QUE MORAVA NO SÍTIO


O ataque furioso de Rompe ferro, o cão guardião da casa, desperta Neto de um sono profundo. Neto estava deitado em uma rede, com ele um lençol umedecido que não lhe servia de conforto naquele momento.

Com bastante frio, Neto empurra o lençol para as pontas dos pés e se espreguiçava usando todos os músculos do seu pequeno corpo, se enrolando com a rede.

Lá fora o vento soprava forte e fazia barulho nos galhos do pé de Cajaraneira. Ao lembrar do sabor das primeiras frutas do ano, Neto enfrentava o desanimo e o frio para saborear as canjaranas maduras derrubadas pelo vento.

Suas vestes se resumiam a um pequeno calção. De olhos ainda fechados, Neto sentado na rede, deslizava os pés pelos tijolos de barro quadrados que formavam o piso da casa procurando as sandálias, dificilmente elas estavam lá, Neto saía mesmo sem elas.

Na ponta dos pés, Neto se firmava para alcançar a fechadura da porta de cima, com dois estalos e duas voltas na chave, a porta se abria ajudada pela força do vento que batia no rosto de Neto aumentando o  frio em seu corpo, tremulo, braços cruzados, com passadas curtas e os pés no chão, lá vai Neto em busca das frutas.

No terreiro da frente, Rompe ferro percebe sua presença e vem em sua direção ainda ofegante da carreira que tinha dado expulsando um intruso, com garnidos Rompe ferro tentava dizer a Neto o que teria acontecido, mas não tinha êxito, ele era péssimo em comunicação. Os rastros na areia vermelha contavam tudo o que Rompe ferro queria dizer, teria sido Mimoso, o gato preguiçoso do vizinho.

O sol já estava acima da serra, o céu azul anil, uma galinha rodeada por uma dúzia de pintos faziam a festa, todos os pintos comendo os  cupins de uma colmeia no oitão da casa. Já com as mão ocupadas com canjaranas, Neto saboreava as frutinha saborosas, azedas e doces ao mesmo tempo.

Do outro lado da cerca, já nas terras alheias, tinha um pé de Cajueiro com poucas folhas, onde existia um ninho de espinhos de Jurema construído pelas “Cajacas de couro”, o ninho estava sendo motivo de uma batalha pesada. Os concriz queriam a todo custo expulsar as cajácas de couro de sua propriedade.

Neto gostava muito dos concriz, por eles serem bonitos e catarem muito bem, mas não concordava com aquela injustiça. O ninho pertencia a quem teve o trabalho de construir.

A vida de Neto era assim, simples convivendo de forma direta com a natureza. Em meio aquilo tudo, Neto tinha seus sonhos, mas não imaginava que o tempo fosse passar tão rápido, e conseqüentemente transportá-lo para outro mundo distante dali.
  
Hoje Neto tem 43 anos, ele lembra essas cenas de sua infância, com muita saudade, vive hoje em um mundo diferente de tudo que existia ao seu redor quando criança. Depois de todos os sonhos sonhados e realizados, Neto não consegue entender os motivos de não encontrar no dia de hoje, os momentos mágicos e tanta felicidade vivida onde tinha tão pouco, em um meio do nada.

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