quarta-feira, 14 de setembro de 2011

POR UM PÉ DE FEIJÃO.

De: Antônio Torres. por mossoroemfoco.

Nunca mais haverá no mundo um ano  tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (á nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapé) estava explodindo em beleza.

E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raia, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depós do pôr –do - sol   desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida.

Até me esquecia da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar.

Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões  e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar?

E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens.  Nossos braços seriam bastante para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e ai é que ia ser o grande pagode.

Era quando agente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta.

No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava á professora  por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano.

E quando deu meio – dia e a professora disse que podíamos ir, sai correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pala boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada.

E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: O feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do chão para o céu, como um arroto de satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão.

Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe.
E eu vi os olhos de minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que  antes havia arrancado  os pés de feijão.

-Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido?

E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça.E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca.

À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu banco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado.

Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo.  Quando voltei, papai estava falando.

- Ainda temos um feijãozinho- de corda no quintal das bananeiras, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos.
E disse mais:

- Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou. Então  eu pensei:  O velho está certo.

Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele plantando um novo pé de feijão.

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