terça-feira, 19 de abril de 2011

MEU TIO CHICO CARDOSO

O tempo tira quase tudo de nós, o que sobra são apenas as lembranças do que aconteceu nos anos vividos. Hoje me lembrei de um tio que gosto muito, já velhinho com 84 anos, “Padin Chico”, assim que eu o chamo. Francisco Cardoso de Paiva, que todos os outros conhecidos chamam de Chico Cardoso.

Eu com a idade de 10 anos acordava todos os dias com o badalar do chocalho das vacas de tio Chico, era quando ele ia deixar o gado no cercado do serrote branco, na volta ele parava lá em casa para tomar café e conversar um pouco. Passadas curtas e rápidas, lá vinha ele, chapéu de palha, camisa de mangas compridas, uma calça remendada e botas, estas eram suas vestes. Ao chegar sempre a mesma frase: “bom dia”. “Sua benção tio Chico”. “Deus te dê fortuna”.

Dependurada no ombro ele trazia uma espingarda de marca “Rossi”, calibre 32, na cintura uma cartucheira completa de munição. Não faltava com ele um cigarro grosso de fumo que, quando não estava queimando o bigode, estava na orelha, ainda não entendo porque cheirava tanto.

O companheiro de todos os dias de tio Chico se chamava vencedor, um cachorro preto que, apesar de ser um vira-lata, tinha um tamanho impressionante. É desta forma que me lembro daquele grande homem, pessoa humilde, honesta e trabalhadora que  viveu toda sua vida comendo o que plantava, e foi assim que criou um monte de filho num sítio onde um simples carro era novidade.

Na nossa última conversa, há um ano, tio Chico se mostrava decepcionado com o tempo, a sua voz compassada já não tinha os mesmos rumos de antigamente. Ele olhou pra mim com um olhar de tristeza e me falou assim: “Pedro, você deve estar pensando assim, eita Chico Cardoso, nunca mais tu vai subir o serrote branco...”.

Na sequência respondi para ele com a mesma naturalidade que ele havia me falado, “a vida é assim mesmo tio Chico, no dia em que o senhor nasceu sua mãe já sabia que nunca mais Chico Cardoso iria Nascer”, um sorriso brotou no seu rosto, seus lábios trêmulos fizeram descer águas dos meus olhos, me despedindo dele lhe disse, “Sua benção tio Chico”, e ele respondeu, “Deus lhe dê fortuna, meu filho.”


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